Academia ARES-PCJ debate estratégias para reduzir custos com energia elétrica

Com o objetivo de apresentar soluções para a eficiência operacional dos prestadores de serviços, a Academia ARES-PCJ realizou, no dia 11 de fevereiro, o curso "Gestão Energética no Saneamento: O Papel do Mercado Livre de Energia". O evento híbrido reuniu especialistas para discutir como a migração para o ambiente de contratação livre pode gerar economia e maior sustentabilidade financeira para os municípios e autarquias.

 

A abertura do encontro contou com a participação da diretoria da Agência, que contextualizou a importância do tema. O Diretor-Geral, Dalto Favero Brochi, ressaltou que a energia elétrica representa uma quantidade significativa de custos para o setor, tornando essencial o aprendizado sobre novas formas de contratação para garantir a eficácia dos serviços. Em complemento, o Diretor Técnico-Operacional, Rodrigo Leitão, destacou que os prestadores regulados gastam cerca de R$ 1,2 bilhão por ano com eletricidade, e que qualquer eficiência conquistada nesta área reverte-se em melhorias na operação e na qualidade do atendimento à população.

 

O evento foi conduzido pelos engenheiros Ciro Galvão e Ricardo Kato, da consultoria Valuata, que detalharam o funcionamento do setor elétrico nacional. Ciro Galvão iniciou a explanação diferenciando o “ambiente físico” do “ambiente contratual”. Ele explicou que, fisicamente, a energia continua chegando ao consumidor por meio das redes das distribuidoras, enquanto a operação e o equilíbrio do sistema elétrico são coordenados pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), assegurando a confiabilidade do abastecimento. No entanto, no ambiente contratual, o Mercado Livre permite que o consumidor negocie preços, prazos e indexadores diretamente com geradores ou comercializadoras, reduzindo a dependência das tarifas reguladas e das bandeiras tarifárias do mercado cativo. O consumidor continua pagando à distribuidora pelo uso da rede, mas adquire a energia como um insumo sujeito à dinâmica competitiva de mercado.

 

Os palestrantes aprofundaram a explicação sobre as modalidades de migração. Foi esclarecido que empresas com demanda contratada acima de 500 kW podem acessar o mercado atacadista, que oferece maiores economias, mas exige adesão à Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) e exige uma gestão mais estruturada. Já consumidores menores, do Grupo A, podem optar pelo mercado varejista, onde a comercializadora assume as obrigações junto à CCEE, simplificando a operação, embora com margens de economia ligeiramente menores. Um ponto de atenção levantado foi a recente alteração legislativa sobre a energia incentivada, que concedia descontos nas tarifas de uso do sistema de distribuição, benefício que deixou de valer para novas migrações a partir da publicação da nova lei, exigindo recálculos nos estudos de viabilidade.

Ricardo Kato detalhou as regras da CCEE, essenciais para quem opera no modelo atacadista. Ele explicou o conceito de Preço de Liquidação das Diferenças (PLD), que é o valor utilizado para liquidar a energia no mercado de curto prazo. O PLD é volátil e depende fundamentalmente do regime de chuvas e do nível dos reservatórios, uma vez que a matriz brasileira é predominantemente hídrica. Para mitigar riscos, os especialistas abordaram a importância de contratos bem estruturados, explicando termos técnicos como "sazonalização" (distribuição do volume de energia contratada ao longo dos meses do ano) e "modulação" (distribuição do consumo ao longo das horas do dia). A escolha correta entre um contrato com perfil "flat" ou um que siga a carga de consumo é determinante para evitar exposições financeiras indesejadas no mercado spot.

A gestão de riscos e a estratégia de compra foram apontadas como o coração da operação no Mercado Livre. Galvão enfatizou que o segredo não é apenas saber de quem comprar, mas quando comprar. A consultoria independente foi citada como ferramenta crucial para evitar conflitos de interesse, garantindo que a aquisição de energia ocorra em janelas de oportunidade de preços baixos, e não apenas quando o contrato está prestes a vencer. Também foram discutidos os riscos de crédito das comercializadoras e a necessidade de garantias financeiras sólidas nos contratos.

O curso demonstrou que a migração para o Mercado Livre não é apenas uma troca de fornecedor, mas uma mudança de cultura que exige planejamento, estudos de viabilidade robustos e acompanhamento constante. Ao promover esse nível de debate técnico, a ARES-PCJ reafirma seu compromisso com a excelência na regulação, instrumentalizando os prestadores de serviços para que a eficiência energética se traduza em sustentabilidade financeira e, consequentemente, em tarifas justas e serviços de qualidade para a população.